Somos de todos os lugares
Martha Medeiros
Alguém escreveu que o público que lotou o Teatro do Sesi para o show da Maria Rita, em novembro passado, estava na verdade fazendo as pazes com Elis Regina. A declaração aludia, naturalmente, ao fato de Elis ter saído do Rio Grande do Sul para morar definitivamente no Rio, coisa que na época não foi bem digerida pelos gaúchos. Pois é, este assunto ainda dá pano pra manga.
Lembrei disso quando soube, recentemente, que o escritor francês Gustave Flaubert repudiava a França. Ele achava que a sociedade francesa era puritana, esnobe, presunçosa, racista e empolada, e preferia mil vezes o Oriente Médio, em especial o Egito. Entendo isso mais ao menos como alguém gostar mais de um amigo do que de um irmão de sangue. Irmão é destino, já o amigo é uma escolha, e não raro temos mais afinidade com este do que com aquele.
Com lugares, dá-se o mesmo. Certas cidades ou países são capazes de respaldar nossas ideias e valores, enquanto que em nossa própria terra não conseguimos desenvolver nossa identidade. É um descompasso: simplesmente não somos parecidos com o jeito da nossa cidade pensar.
E aí, o que se faz? Ficar e amargurar-se o resto da vida pela falta de identificação?
Exigem-nos fidelidade plena. Se você preferir algo que não é legitimamente “seu”, ninguém vai achar simplesmente que você preza sua liberdade de escolha: nada disso, irão decretar que você não tem caráter. Quem tem caráter não fala mal do Brasil, quem tem caráter não questiona raízes, família, pátria: agradece o que ganhou de presente da vida, não faz comparações e muito menos se queixa. O Rio de Janeiro lhe é mais amistoso que Porto Alegre? Você não gosta de cinema brasileiro? Prefere jazz ao samba? Pegue suas coisas e nunca mais nos dirija a palavra.
Oportunidades de trabalho existem nos quatro cantos do planeta. Nossa cara-metade pode estar a nossa espera em Hong Kong ou no Recife. Nossos sentimentos não possuem comprovante de residência nem atestado de bons antecedentes.
Somos meio indígenas, uruguaios, marcianos, somos pessoas direitas e cheias de pequenos pecados, somos uma mescla do nosso pai, da nossa mãe e dos vizinhos malcriados da nossa infância, aqueles que nos ensinaram o que não se podia saber. Temos tanta chance de ser feliz em Caracas como de sofrer de depressão no coração da nossa cidade natal, quem de nós já testou meia-dúzia e possibilidades, entre as milhões que há? Pazes feitas com Elis Regina, pazes feitas com quem foi feliz onde quis, pazes feitas com as escolhas dos outros e as nossas: não há lugar melhor do que aquele em que nos encontramos – fora ou aqui, mas dentro de nós.
Domingo, 21 de dezembro de 2003.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.